sábado, 19 de setembro de 2009

A Cena Blues em Recife

Estava a equipe do Recife Blues no excelente show do guitarrista americano John Primer, quando em meio à euforia do público que curtia cada música do espetáculo, um amigo disse:

"É... Tá vendo aí? Não precisa virtuosismo pra fazer um bom Blues"

Sim, é verdade, esta frase refletia não apenas o show que estávamos assistindo naquele momento, mas nos lembrava de um dos maiores equívocos que têm tomado conta das platéias do Blues mundial na era pós-Stevie Ray Vaughan, a tal da busca pelas performances técnicas apuradíssimas, num estilo que deveria ter, em sua maior essência, não a habilidade técnica dos músicos, mas seus sentimentos, sua entrega absoluta à interpretação, como fizeram os grandes mestres Howlin' Wolf, BB King, John Lee Hooker, e até mesmo Robert Johnson, cuja propagandeada habilidade nada mais era do que uma forma de tocar que quebrava as convenções técnicas e harmônicas de sua época, quebrando compassos, inventando acordes.

E falando em Stevie Ray Vaughan, claro que devemos muito às suas performances modernas de Blues, que reacenderam o interesse pelo estilo entre os expectadores mais jovens nos anos 80, acostumados a chegar até o Blues vindos do Rock do Led Zeppelin e Deep Purple, e sim, isto também é Blues - É uma segmentação do Blues que se convencionou chamar de Texas, e tem entre seus expoentes mais famosos Johnny Winter e SRV.

E esta pequena história acaba por nos fazer também compreender melhor a cena de Blues em nossa cidade, suas vertentes, e o que devemos esperar de cada uma. Conhecer as diferentes vertentes e possibilidades deve ser bom, pois para termos uma cena forte, é preciso que os aficionados de Blues em nosso pequeno espaço saibam o que esperar e valorizar de cada uma das bandas que costuma estar em nossos roteiros pelos bares recifenses.

Quem faz a cena de Blues em Recife, hoje em dia?

Sem dúvidas, considerando as "marcas" que estão sempre no zunzunzum dos fãs de Blues na cidade, os dois maiores expoentes da cena local hoje em dia são a El Mocambo (foto) e a Uptown Band, seguidos tangencialmente pela Bluestamontes, que tem buscado uma cena bastante diferenciada destas outras duas.

Na cidade, contudo, existem inúmeras bandas excelentes de Blues, como os novatos da Midnight Man Blues, os veteranos da Jambalaya e da Dodge Band, os mais veteranos ainda da Morango Jungle, os "forasteiros" Neil Arnold e Guto Santana, e mesmo se eu continuasse citando nomes, seria sempre injusto com alguém, pois sempre que saímos na noite vemos alguma nova banda incursionando pelo estilo, sempre com extrema habilidade, para quem sempre teremos espaço em nosso blog.

Também, em paralelo a esta cena assumidamente Blues, vemos a moçada do Fusion, Jazz e Rock Clássico, que vez por outra também se dedica ao Blues. Bons exemplos desta categoria seriam os mestres Beto Kaiser(guitarra) e Victor Araújo(teclados).

E por último, e não menos importante, podemos citar as cenas de Blues das cidades próximas a Recife, que vez por outra também pousam na cidade, como no caso do pessoal da The Bluz, de Caruaru.

Quais as diferenças entre estas cenas?

Entre a moçada mais jovem, até o momento do fechamento desta matéria, a banda mais popular é invariavelmente a El Mocambo, que já rala há mais de 5 anos na cena recifense, tem um público fidelíssimo que acompanha seus shows, e faz um excelente Blues ao estilo Texas, com as guitarras apuradíssimas e cheias de feeling de Rodrigo Morcego, e uma cozinha impecável formada por Jô Pinto (Batera) e Thiago Pequeno (Baixo).

A El Mocambo, atualmente, está divulgando seu recém lançado CD de músicas autorais, no qual optou por uma linha mais Rock do que Blues, cantado em português, e sim, está agradando em cheio seu público com boas composições e shows muito bem produzidos.

A banda é responsável por cativar a moçada que frequenta o Recife Antigo, para Blues, e lota sempre seus shows semanais no Bar Burburinho há 4 anos.

Quem vai ao show da El Mocambo, busca o apuro técnico imbatível do trio, o carisma de Morcego (guitarrista e vocalista), e deve esperar muitas guitarras, e shows de Blues com uma pegada mais moderna e roqueira.

Atualmente, a outra banda que segue na mesma linha de Blues é a Midnight Man Blues, que também tem tocado em trio, e se dedicado ao Texas Blues, incluindo muitas versões de Stevie Ray Vaughan em seu repertório.

A Uptown Band faz um estilo de Blues mais próximo do que se convencionou chamar de "Chicago". Este é um tipo de blues mais cadenciado e dançante, no qual todos os instrumentos são valorizados, e os vocais são mais carismáticos. Neste estilo, ao contrário do Texas, não se vê grandes solos de guitarra, que está presente em um volume geralmente mais baixo que no caso do Texas Blues.

Capitaneados pelo baterista e grande conhecedor de Blues Giovanni Papaléo, a Uptown Band é a veterana na cena local, sendo historicamente a primeira banda recifense a se assumir como banda de Blues, vencendo todas as barreiras iniciais de rejeição ao estilo pelas casas noturnas locais, e se mantendo ativa há mais de 13 anos.

O público da Uptown Band é um público classudo, mais velho, frequentador das melhores casas noturnas da cidade, que busca em seus shows um contato maior com toda a cultura que o Blues envolve.

Já gravaram um CD autoral no qual experimentaram misturas de Blues com ritmos regionais tais como o Frevo, e mesmo em seus shows, se dedica a aproximar o Blues de um público mais abrangente, cantando letras em português e crossovers interessantes.

Também, é da Uptown e Giovanni, o mérito de trazer e acompanhar os grandes mestres do Blues americano (Como magic Slim, John Primer, entre tantos outros) e da cena nacional (Robson Vernandes, Nuno Mindelis, entre tantos outros).

Estas duas cenas distintas de Blues costumam gerar pequenas controvérsias entre seus fãs mais calorosos. Os fãs da Uptown, acostumados com um blues mais classudo, facilmente classificariam a El Mocambo como "muito barulhenta", ou como "não blues"; e os fãs da El Mocambo, acostumados aos solos apurados de guitarra, vez por outra poderiam cair no erro de achar que a Uptown Band é "muito morna" ou teria menos qualidade técnica.

Ambas as impressões seriam terrivelmente e venenosamente errôneas para quem queira ver uma cena de Blues mais fortalecida na cidade.

Vindo por fora, a Bluestamontes Blues Band é influenciada pelo menos conhecido dos estilos de blues entre os fãs na cidade. A banda é calcada no blues de improvisação, com pegada e ênfase nos vocais ao estilo Country Blues (como Howling Wolf), mesclado a vocais estilo James Brown. Aposta em muito espaço para experimentação e crossovers com Rock, Soul, Funk.

O resultado desta mistura e a opção pelo improviso é um blues mais pesado que o Chicago e bem menos tecnicamente apurado que o Texas, e que valoriza vocais e linhas de piano (teclado), o que facilmente poderia desagradar às duas maiores correntes de Blues na cidade, mas acabou se consolidando como uma sonoridade à parte, conquistando alguns seguidores fiéis provenientes das duas outras vertentes, e conseguindo chamar atenção do público no Sul do país (onde algumas de suas músicas tocam em rádios independentes e estatais), e até mesmo abrindo caminhos para uma carreira no exterior (Londres) onde seu estilo é bastante valorizado.

A Bluestamontes gravou um CD autoral em 2007 completamente de improviso e ao vivo, e aposta em composição de Blues tradicional em inglês. Existe desde 2007, e durante um ano e meio, no começo de sua carreira tocou semanalmente pelos bares da cidade, quase que exclusivamente seu trabalho autoral e improvisos.

Atualmente, seus integrantes estão se dedicando a trabalhos paralelos, e a banda promete voltar à cena noturna da cidade em 2010.

Outra banda que tem presença constante na noite recifense, a Dodge Band já tem outra sonoridade de blues, aproximada do "White Blues" de bandas como Canned Heat e Eric Clapton, ou mesmo as gravações de Blues do Elvis Presley.

Mais uma vez, é legal lembrar que existem muitas outras bandas, e cada uma delas possui suas próprias influências e caminhos.

Mas afinal, quem é melhor?

Puxa... Certamente, o Recife Blues teria de te perguntar se James Brown é melhor do que Jimmy Hendrix, ou se Stevie Ray Vaughan é melhor do que John Lee Hooker, e ao se matutar um pouco sobre estas questões, fica fácil entender que existem muitos nuances no Blues, e o melhor é curtir cada um na forma que cada um se apresenta, curtir a música.

Blues, afinal, é sobre o sentimento que a música te passa, e a interação de músicos e platéia, assim como fazem a El Mocambo, a Uptown, a Bluestamontes, a Dodge Band, a Midnight Man, a Jambalaya, e também, na história do gênero, John lee Hooker, Howling Wolf, Eric Clapton, Stevie Ray Vaughan, etc...

Se quisermos curtir habilidades técnicas, podemos buscá-las com maior eficiência e qualidade no Heavy Metal, Progressivo, Prog-Metal, Fusion, Jazz Rock, etc.

Onde Curtir Blues em Recife?

Já se curtiu Blues no Downtown, no La Prensa, no Toca da Joana, no Pedra de Toque.

Atualmente, a casa que mais abre espaço para o Blues na cidade é o Bar Burburinho (Rua Tomazina, 106, Recife Antigo), mantendo as Sextas-Feiras reservadas para a El Mocambo, as Quintas para a Midnight Man Blues, e sempre abrindo espaços aqui e ali aos Sábados para a Bluestamontes.

A Uptown costuma tocar no Audrey em Boa Viagem, mas está sempre circulando com seus eventos (Oi Blues) por casas como Spirit, Downtown e até o Quintal do Lima.

No último Domingo de cada mês, pode-se curtir a Uptown no auditório da Livraria Cultura, no Recife Antigo.

El Mocambo, Bluestamontes e Dodge Band estão sempre buscando novos espaços para tocar, e sempre acontecem shows esporádicos em locais como Manhattan, Pedra de Toque, Quintal do Lima, Biruta, e até mesmo Nox.

O Espaço do Blues na Cidade

Como se pode ver, não falta espaço para o Blues na cidade. O que acontece vez por outra é falta da presença do público. Todas as bandas que citamos neste artigo já tiveram várias experiências de tocar para uma casa vazia, vez ou outra, assim como de tocar para casas lotadas.

A certeza é de que o público, quando está presente, sempre gosta. Tem sempre mulher bonita na platéia, e o astral é dos melhores.

O Recife Blues

O Recife Blues é apenas um blog a serviço de quem quer tocar Blues, ou saber onde se está tocando Blues.

E sim, vez por outra, vamos postar matérias como esta, com informações que possam fortalecer a cena e as referências de blues de quem quer vê-la saudável e sorridente.

Não deixe de buscar na Google e no Youtube, se você ainda não conhece, os nomes citados neste artigo (os locais e as referências).

E esta é uma boa deixa pra vc postar aí embaixo um comentário com o nome de sua banda de Blues, links para seus sites.

O Recife Blues não foi criado pra quem reclama da falta de espaço. Foi criado para dar espaço. E de graça.

Vida longa ao Blues recifense!

4 comentários:

  1. Aristides Oliveira5 de novembro de 2009 21:38

    Finalmente um espaço para os amantes recifenses do Blues!!! Semana passada fiquei, sem sucesso, procurando shosws de blues e também amigos pra ir curtir comigo... Fui para ligeui para algumas casas e descobri que em dois lugares iria ter sertanejo!! Que decepção..kkk
    Valeu pessoal..e até amanhã no Burburinho.
    abraço

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  2. Este texto é de utilidade pública, viu?! Continuem atualizando o blog, por favor, que tou correndo atrás, seja de qual vertente de Blues for!

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  3. Parabens, pela reportagem bluzeira - maneira.
    Gostaria que o Blues virasse mania nacional e essas bandas de brega desse um tempo - uns 100 anos. AH ah ah ah ah....

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  4. dia de quarta - tem blues no recife antigo
    http://caravelascafe.wordpress.com/programacao/rock%C2%B4n%C2%B4blues-quarta-2030hrs/

    http://caravelascafe.files.wordpress.com/2010/01/rockblues3.jpg

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