sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Série - Observatório do Blues - Capítulo 3



Nesta série Observatório do Blues, vamos expor alguns dos maiores nomes do Blues e algumas curiosidades e expressões da cultura que envolve este estilo musical, em pinceladas rápidas e não necessariamente cronológicas.

Para ver os outros da série e ir acompanhando, basta clicar na tag (marcador) Observatório do Blues, ao final deste post.

Steve Ray Vaughan


Nos anos 80, quem não estava ouvindo os hits do revigorado cenário pop da época, estava se embrenhando pelos universos paralelos do recém-surgido fenômeno das tribos underground.

Existiam os Punks, os Metaleiros, o pessoal do Fusion, da New Wave, e tantas outras facções que começavam a surgir em mercados independentes entre aqueles que se renegavam a se misturar à forte retomada dos valores consumistas (pós-anos-70) e caretas que se empunham com a vinda da cultura de MTV, o surgimento da AIDS, o bom momento econômico nos USA.

A soberana música pop começava a ser dominada por grandes músicos dos anos 70 que estavam ajustando seus estilos às novas exigências de padrão do mercado fonográfico (Elton John, Tina Turner, Michael Jackson, David Bowie).

No circuito underground, o então promissor mercado do Heavy Metal começava a render frutos de boa importância comercial que se contrapunham ao mercado Pop que naquele momento renegava as seções instrumentais de suas músicas.

É neste contexto de grande efervecência multi-cultural que se erguia na multidão a figura do Guitar-Hero (não é o videogame, babes).

Ainda inspirados em ícones como Jimmy Hendrix e Frank Zappa, os adolescentes dos anos 80 que decidiam estudar guitarra ou qualquer outro instrumento ligado ao rock começavam a copiar e difundir entre si fitas VHS de shows de guitarristas virtuosos como Ed Van Halen (banda Van Halen) e Yngwie Malmsteen, que logo depois trouxeram à tona Steve Vai, Joe Satriani e, no blues, Steve Ray Vaughan.

Estes caras simbolizavam o antídoto ao pop azedo da época.

Paradoxalmente, este mesmo pop azedo, buscando por elos de ligação com esta comunidade underground que começava a interessar comercialmente às grandes gravadoras, foi o responsável pelo turbinamento da carreira comercial destes grandes guitarristas.

Se John Lyndon (ex-Sex Pistols) contratou Steve Vai para tocar guitarra em seu projeto PIL e Michael Jackson contratou Ed Van Halen para tocar em Thriller, o mais antenado dos criadores pop dos anos 80, Mr David Bowie, lançava para o mundo inteiro em seu LP mais vendido, Let's Dance, um jovem fenômeno da guitarra do Texas, Steve Ray Vaughan.

Steve Ray Vaughan já tinha algum sucesso em Austin, Texas, dentro do circuito de bares e rádios especializadas, desde o final dos anos 70.

Por lá, começou tocando baixo na banda do irmão guitarrista Jimmy Vaughan e em seguida se juntou a uma cozinha de baixo e bateria formada pelos impecáveis Chris Layton (bateria) e Tommy Shannon (baixo), o Double Trouble.

Em 1983, ainda na era pós The Blues Brothers (o filme), com a comunidade musical antenada no que o Blues pudesse produzir de interessante, o LP Texas Flood (Steve Ray Vaughan and The Double Trouble) chegou aos quatro cantos do mundo pela Epic/CBS, com boa expressividade em vendas, e emplacando o quase hit Pride and Joy entre os 20 mais tocados em rádios especializadas nos Estados Unidos.

No Brasil, a rede de lojas de discos paulista Museu do Disco, vendia uma tiragem exclusiva de Texas Flood, entre outros quitutes musicais, em sua seção dos fundos, direcionada a audiófilos.

As primeiras fitas VHS de Steve Ray Vaughan começaram a surgir também em cópias piratas nas famosas Galerias do Rock no centro paulista.

Steve Ray Vaughan era a voz do blues dentro de todo este cenário que descrevi.

Era o cara certo, com a habilidade necessária para peitar os "Yngwie Malmsteens", e manter o interesse desta nova e nervosa geração também pelo Blues, e ainda era bom cantor, bom compositor, carismático no palco.

Sem a existência de um SRV, naquele cenário, o Blues mais uma vez poderia cair no ostracismo.

O maior diferencial de SRV em relação aos outros Guitar-Heroes, diziam os fãs, era que ele elevava o virtuosismo da guitarra a um novo plano, trazendo, além da esperada técnica e rapidez nos dedos, muito sentimento e musicalidade.

Além disto, Steve Ray Vaughan trouxe para a guitarra de rock novos elementos pouco comuns para o estilo. Em sua guitarra, por exemplo, utilizava cordas muito mais grossas que as utilizadas pelos rapidinhos do Fusion e Heavy Metal (espessuras de 0.14 a 0.18), o que o forçava a utilizar uma afinação meio tom abaixo da usual (para relaxar um pouco a tensão das cordas da guitarra, e permitindo que ainda pudesse utilizar bends e outros recursos do blues).

Aqueles que já tocaram guitarra sabem que quanto maior a espessura da corda, maior a dificuldade de se ter rapidez e flexibilidade nos solos. Contudo, cordas mais grossas geram timbres mais encorpados, e timbre era mais uma das maiores qualidades das guitarras de Stevie Ray Vaughan.

Por causa de sua pegada semelhante à de ícones do Classic Rock e Heavy Metal (Jimmy Hendrix, Ed Van Halen, por exemplo), Steve Ray Vaughan muitas vezes é rejeitado pelos ouvintes do Blues como um representante do estilo.

Mas verdade seja dita, sua técnica que misturava o Blues a escalas e ritmos do Country (o chamado estilo Texas) e as inseria num contexto quase rock de imensa contemporaneidade foi uma imensa inovação para o Blues como música e como mercado. Isto dito sobre uma música mestiça como é o Blues, que surgiu da conjunção de culturas negras, brancas e índias, nada mais é do que uma prova de que o Blues continua vivo e evoluindo, assim como o Rock e o Pop.

Graças a Stevie Ray Vaughan, o mundo passou a ter ainda mais interesse por músicos como Eric Clapton, Robert Cray, Jeff Healey, George Thorogood, todos blueseiros pouco apegados às raízes do Delta Blues, mas responsáveis pela manutenção deste legado.

Infelizmente, perdemos Steve Ray Vaughan em um trágico acidente de helicóptero em 1990, mas seu legado está vivo em milhares de guitarristas em todo o mundo, que o buscam ainda como referência principal quando o assunto é blues contemporâneo.

*Abaixo, Steve Ray Vaughan toca no clássico China Girl de David Bowie, música que lançou sua guitarra nos circuitos FM da época (existem versões extended circulando por aí, com os solos completos de SRV).

*Para aqueles que curtem estas curiosidades, circulam pelos Youtubes e Emules da net gravações bootlegs dos ensaios da turnê de David Bowie com SRV (que nunca aconteceu nos palcos, pois com o sucesso inesperado de Pride and Joy nas rádios na mesma época dos ensaios, o guitarrista abandonou o projeto para se dedicar à sua carreira solo). Também, vale a pena reouvir o CD Let's Dance de David Bowie, repleto de boas sacadas de SRV, ainda que dentro dos limites do pop.

* Para encontrar referências usuais de SRV em sua carreira com a Double Trouble, não existem dificuldades, pelos mesmos canais)

Um comentário:

  1. Mt legal conhecer mais o steve.
    Eu gosto demais do Observatório pq proporciona um acesso maior à história do blues.

    Obrigado Recifeblues.
    Marcelo Moreira

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