quarta-feira, 16 de junho de 2010

Série - O Verdadeiro Blues - Capítulo 1


 Em 2009, o blueseiro americano Eddie C Cambell, em Recife a convite de Giovanni Papaleo, fazia um workshop na Livraria Cultura, quando resolveu falar sobre a grande injustiça que história do Blues fez ao ignorar a influência dos índios americanos e seus cânticos tribais no surgimento do estilo. Segundo Eddie, sua mãe era de uma destas tribos e ele mesmo cresceu sob influência desta cultura. Não contente apenas em explicar este elemento musical, Eddie começou a cantarolar o tal Blues indígena, que ouvido daquela forma praticamente colocaria abaixo todas as teorias explicadas no famoso documentário "The Blues" de Martin Scorsese, citado por ele como um exemplo desta "injustiça".

Sim, certamente, os índios americanos têm sua influência, assim como outras culturas importantes como a francesa e a irlandesa, e não é preciso muita pesquisa histórica para entender que ignorar que estes povos tenham se cruzado culturalmente pelos Estados Unidos na época do surgimento do Blues é simplesmente um erro.

Isto fica ainda mais claro quando percebemos que a estrutura na construção do Blues se parece com a música dos menestréis europeus, e até mesmo algumas canções da cultura popular da Europa viearam a se tornar standards do Country/Blues, tendo como representante mais famosa "The House Of The Rising Sun", que havia sido inicialmente posto na roda pelo blueseiro Leadbelly (foto ao alto), na época em que estas divisões entre Blues/Country/Rock, ainda nem bem existiam de forma muito clara, e tudo era parte de um mesmo caldeirão musical e cultural.

Mas e a participação africana nisto tudo? Não existe? Sim, claro que existe, e é grande! Foi deles a tarefa de destilar isso tudo através de sua própria cultura, recebendo influências mil das escalas musicais das canções evangélicas dos europeus que lhes impunham sua religião, e das canções populares e mundanas que houviam de trabalhadores também europeus.

Na tentativa de emulação destas canções, misturando-as às suas tradições vocais e ao uso de instrumentos baratos que eram similares genéricos dos "verdadeiros instrumentos musicais" da época*, surgia sem pretensões uma música viralatas, sem pai nem mãe, mas adotada rapidamente por muitos.

Ritmos como Shuffle e Boogie começavam aos poucos a dar o ar das graças, vindos diretamente de variações dos ritmos de fanfarra franceses e das polkas que eram a base dos ritmos europeus.

Provavelmente, ao longo da busca por uma identidade americana legítima, a cultura americana e seus historiadores preferiram ignorar as influências musicais de seus colonizadores (Europa), e de seus colonizados (povos indígenas), como forma de reforçar a informação de que ali nascia uma nova nação, para dizer o mínimo, e não entrarmos envolvidos em teorias de conspiração.

Mesmo se entendendo que este não é um texto científico, ainda repleto de meras suposições, não fica difícil entender que buscar purismo no Blues é tanto engano quanto tentar definir quem é negro e quem é branco num país como o Brasil, que passou pelo mesmo caldeirão de influências.

O Brasil, por falar nisto, assim como outros países colonizados, possui estilos musicais irmãos do Blues, tais como os ritmos do Forró, que não se tornaram tão populares na construção de uma cultura mundial por não terem passado pelo banho estético e exposição mundial que a cultura americana passou a ter por volta dos anos 50 em diante (sim, isto começou antes, mas foi nesta época, por mil razões da história e política, que a colonização cultural americana do mundo se deu mais forte).

(... em breve, Capítulo 2)

*Pode-se dizer que a guitarra/violão se popularizava como uma opção mais barata ao piano, pois podia repreoduzir alguns de seus "clichês", e a gaita surgia como um similar mais econômico para o acordeon, que era visto nas mãos dos europeus.

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