quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Roteiro Blues no Jornal do Commercio


Pra quem não viu ainda, taí a imagem da matéria bem bacana que saiu no último Domingo, dia 12 de Setembro de 2010, sobre o Roteiro Blues (clique para ver em tamanho real).

Logo abaixo, o texto de Diogo Guedes na ìntegra. Mais uma vez, muito obrigado a Diogo e a Marcelo Pereira (JC).

BLUES RESPIRA NOVOS ARES NO RECIFE

O Roteiro Blues é um projeto que se propõe a criar um calendário de shows nos bares da cidade, para difundir o gênero e unificar a cena

Diogo Guedes
Especial para o JC

Se você for, em uma segunda-feira qualquer, depois das 22h, na Rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife, talvez estranhe um único bar aberto, o Caravela’s, com cadeiras na calçada e movimentação constante. O local é um dos palcos do Roteiro Blues, projeto que, desde o mês passado, se propôs a criar um calendário de shows de blues na cidade. O objetivo? Além, é claro, de difundir o gênero, unificar a emergente cena da cidade, movimentando bandas, músicos, bares e até mesmo público.

O mentor da ideia é o vocalista Rico de Moraes, conhecido como Rico Bluestamontes, apelido relacionado à banda que fundou em 2007. Para pensar no Roteiro Blues, Rico uniu sua paixão pela música ao trabalho de consultor de marketing do Burburinho e do Caravela’s . “Projetei o Roteiro Blues para revitalizar a cena de blues local e o próprio Recife Antigo, que não tem mais tanta programação”, explica o vocalista.

Um dos pontos principais, para Rico, é criar uma cadeia sustentável de consumo do blues, benéfica para os músicos, para os bares e público. “A ideia do roteiro foi minha, mas ela não foi feita para mim. É uma proposta de marketing mesmo. E fazemos o roteiro sem o dinheiro do governo, até porque nunca fomos pedir. Não é nossa intenção”, afirma, ressaltando também o baixo preço dos ingressos – nenhum deles custa mais de R$ 10. “Com o roteiro, estamos conseguindo lotar o Burburinho nas últimas noites. A Uptown tocou lá das 23h até as 3h30, para um excelente público. Lula Côrtes também lotou”.

Os músicos já percebem a mudança na cena. Um dos mais atuantes e mais respeitados nomes do gênero, o habilidoso guitarrista Rodrigo Cavalho, o Morcego, que participou da El Mocambo, da Uptown Band e da Má Companhia, comemora a mudança de ares nos shows do gênero. “O roteiro é uma proposta muito boa. Ele está conseguindo renovar o público, o que é essencial”, declara o músico, agora em trabalho solo. “Não só temos uma quantidade boa de bandas agora, mas também estamos começando a ter diferentes opções de estilos de blues”, alegra-se.

O baterista e engenheiro de som Denis Heavyline, responsável pela “cozinha” da Slideblues Band, também destaca o lado artístico do blues recifense. “Temos grandes músicos no Recife. Na verdade, algumas bandas têm tocado blues agora porque o ritmo está pegando, a cena está crescendo. Com isso, a gente não pode, também, esperar que 100% dos músicos sejam bons”, conta.

“Os bares que tocam blues são considerados bares mais culturais”, aponta o veterano da cena, o produtor musical e baterista Giovanni Papaleo, da banda mais antiga da cidade, a Uptown Band, com 13 anos de carreira. Para ele, Recife já conta com seguidores fiéis do gênero. “Se não houvesse público para o blues, a Oi não patrocinaria o Oi Blues by Night, que reúne 400 pessoas numa quarta-feira à noite”, afirma o músico, também produtor do evento. “Eu até comemorei o fato de ter cambistas no último Oi Blues”, brinca.

Rico avalia positivamente o estado atual do blues no Recife. “A cena ainda não tem uma cara própria. Mas ela conta com grandes músicos, pessoas muito apaixonadas. Nós temos um público receptivo e fiel. Somos uma cena emergente”, opina.

Apesar dos avanços, os outros músicos reconhecem a necessidade de corrigir pequenos problemas. 

Giovanni considera que o blues é encarado como música “marginal”, e muita vezes é desvirtuado. “Como blues não dá dinheiro, muitas pessoas tocam música pop e não se preocupam em manter uma coerência com o blues”, reclama. Para Morcego, a principal necessidade do blues recifense é de que mais locais abram espaço para os shows. “Seria importante, por exemplo, que o roteiro conseguisse se estender para novas casas”, defende. Também critica a falta de paixão de alguns músicos. “O erro, para mim, é quando o blues é tocado como qualquer coisa, sem cuidado”.

Denis admite não estar muito envolvido na cena atualmente, por questões pessoais. Ainda assim, ele aponta o que considera os dois principais problemas da cena. O primeiro são os cachês, ainda muito baixos, segundo o baterista da Slideblues Band. “E talvez o que seja preciso é que as bandas se profissionalizem. Você vê algumas bandas que não têm instrumentos próprios, ou que chegam atrasados. Nunca faltou lugar para uma banda como a Uptown Band tocar. Isso é o fruto do trabalho do pessoal”, comenta.

CENÁRIO JÁ FOI MAIS MOVIMENTADO

Atualmente, a cena recifense tem poucos redutos para acolher os fiéis seguidores do gênero. O principal, claro, é o Oi Blues by Night, no Spirit Music Hall, que traz atrações nacionais e internacionais. A última edição contou com o pianista norte-americano de blues Donny Nichilo, e a próxima atração é o guitarrista gaúcho Fernando Noronha, no dia 22 deste mês.

Outros locais que recebem shows de blues regularmente na cidade são os bares Banquete e Curupira, respectivamente, aos sábados e domingos. Denis, da Slideblues, ainda cita a Livraria Cultura, que eventualmente também recebe apresentações do gênero. No entanto, Giovanni e Morcego, velhos militantes da cena, reconhecem que já existiram diversos outros palcos.

Segundo Giovanni, o primeiro show de blues do Recife foi o da Blues Etílicos, no Teatro do Parque, em 1988. De locais que hospedaram regularmente atrações locais, ele destaca o Downtown, “O primeiro a abrir as portas para o blues na cidade”. Enquanto isso, Morcego lembra com carinho do La Prensa, bar do jornalista e escritor Samarone Lima. “Pouca gente fala de lá. Foi nele que eu comecei a ter contato com o pessoal que toca blues. Era mais ou menos como são hoje os shows do roteiro no Caravela’s”, conta. Ele também recorda um projeto parecido com o Roteiro Blues, o Cooperativa do Blues, de 2003, em que as bandas da cidade circulavam pelo Burburinho, pelo extinto London Pub e pelo Pedra de Toque.

Dentre as bandas em atividade, a principal, sem dúvida, é a veterana Uptown Band, que funciona como banda de apoio para nomes de fora que vêm para o Oi Blues by Night. O grupo investe na valorização do blues tradicional e serviu de escola para diversos músicos locais. Rodrigo Morcego, foi um deles. “Fiquei dois anos e meio na Uptown. Na época, o blues estava explodindo no Brasil, e a Uptown acompanhou nomes de importância nacional, como Big Gilson. Foram encontros muito bons”, diz.

Na opinião de Morcego, outro destaque é a Midnight Man Blues: “a melhor dentro do Texas Blues”, estilo com mais peso nas guitarras elétricas. Já a Recife Blues Band é a banda embaixadora do blog Recife Blues (www.recifeblues.com.br), um dos principais meios de comunicação da cena local. Além de Rico e Morcego, o grupo tem Gustavo Albuquerque, Fred Monier e Márcio Menezes. “É uma banda de jam sessions”, define Rico.

Outros blueseiros em atividade são as já citadas Bluestamontes Blues Band, Rodrigo Morcego e a Slideblues, de Denis. Má Companhia, Hoochie Coochie Band e Black Cat Bone, Marcelo Demo e Bruno César, também têm apresentações constantes. Outros nomes menos ativos são a Dodge Band, Alexandre Santiago e o guitarrista britânico Neil Arnold. Os veteranos da The Bluz, de Caruaru, planejam lançar em breve MississiPE, seu segundo álbum. (D.G.).
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Alguns Comentários do Blog Recife Blues:

A matéria está excelente, e mostra que nossa cena de Blues está ganhando alguma notoriedade, conseguindo espaço constante na mídia, e não apenas notinhas, como era de costume até então, quando não se tratavam de algum mestre do Blues vindo de fora da cidade.

Claro, o Recife Blues não concorda com todos os comentários, e nem deveria - é assim que deve ser uma boa matéria, mostrando as várias visões de um todo.

É importante frisar que Recife nunca antes do Roteiro Blues viu uma cena local com tantas possibilidades. Não falo de tamanho ou importância, mas de possibilidades.

A cidade nunca teve um fluxo tão grande de novos expoentes do Blues de fora da cidade interessados em tocar por aqui, em bares (Artur Menezes, Gustavo Andrade, Mustache Maia, Felipe Cazaux, The Bluz, e tantos outros que estão nos contatando).

O que se vê agora, além do fato de termos um dos mais importantes eventos de Blues do país, o Oi Blues By Night do grande parceiro Giovanni Papaleo, também temos uma cena cotidiana (guarde bem esta palavra). Isto significa que o Blues está agora presente em shows semanais, e com público de bom nível e com tendência a crescer se o tratarmos com carinho, não como sucesso esporádico de uma banda ou um bar, mas pela própria cena, que inclui inúmeras bandas e cada vez mais bares.

Claro, é preciso entender que Recife está no Nordeste brasileiro, e existe um limite para o crescimento desta cena, tanto em tamanho, possibilidades financeiras e mesmo importância, pois vai contra a cultura local, e jamais se deve esperar que seja diferente disto. A cultura de Pernambuco é incrível, e tem sido exportada para outros países, então não se trata de ganhar o espaço que já tem o Carnaval, o Maracatu, o Rock, o sabinha de Domingo e até mesmo o Brega (cada um na sua), afinal, eles conquistaram o espaço deles. Se tivermos uma cena de nicho, como a que acontece agora, com bares de pequeno porte abrindo espaço e público se interessando, está de muito bom tamanho, se somado aos grandes shows que já rolam como o Oi Blues By Night e outras movimentações que vez por outras surgem por aqui.

Podem acreditar, isto já é mais do que existe em grandes cidades, como São Paulo e Rio.

Uma cena se faz com público interessado na cena. E isto, ao que vejo, é nossa maior conquista neste momento. Se há público, e ele souber aonde nos encontrar, é só ligar os amplificadores e deixar o som rolar.

E que sempre tenhamos Blues pra quem quiser ouvir Blues!

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